Dialogo

Cinco coisas que aprendi com o Steve

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Sempre que revejo Forrest Gump, sinto uma ponta de inveja na cena em que Tom Hanks conta que seu sócio está investindo em “maçãs” – enquanto a câmera revela um papel timbrado com a famosa logomarca colorida dos anos 80.

Fui apresentado a um Apple IIe em 83, na casa de um amigo do colégio. Com um teclado profissional melhor que o do CP 500 (alguém lembra?), ele era uma manifestação clara do perfeccionismo de Jobs e do seu foco em estratégia: investir pesado no segmento de computadores pessoais, não corporativos. Em 85, 10 mil computadores foram vendidos no Brasil, quase 100% corporativos. Em 2011, a projeção é de 16,3 milhões, 68% domésticos. Jobs estava certo.

Como criativo, gasto muitas horas em iMacs e MacBooks. Como empresário, gasto outras em livros de gestão e biografias. Ler biografias do fundador da Apple nos faz lembrar do quanto a criatividade é necessária no mundo dos negócios. Qualquer livro de “auto-ajuda” empresarial traz uma lista de passos parecidos com os dele para se chegar ao “sucesso”. Mas, como disse Morpheus no filme Matrix, uma coisa é “knowing the path”, outra é “walking the path”. Em nossa era, ninguém soube caminhar melhor que o Steve:

1 – Mantenha o Foco e a Paixão:

“A raízes da Apple vieram de se criar computadores para pessoas, não para corporações. O mundo não precisa de outra Dell ou Compaq.” Foi assim que percebeu que inovar é dizer “não” para muitas coisas e escolher as que de fato você acredita. Em um discurso para formandos, afirmou:  “lembrar-me de que estarei morto em pouco tempo é a mais importante ferramenta que já encontrei para ajudar a fazer as grandes escolhas da vida. Lembrar-se de que vai morrer é a melhor forma de evitar as armadilhas de se pensar que tem algo a perder. Você já está nu. Não há motivo para não seguir as escolhas do seu coração.”

2 – Seja um Pouco Obsessivo:

Jobs é um maníaco por controle. É elitista, perfeccionista e, para muitos, um déspota. De sua fama de chefe autoritário, surgiu até um verbo dentro da empresa: “To Be Steved”.  Em bom português, “ser demitido diretamente por ele”. O que podia acontecer numa sala de reunião ou num elevador.

A Apple possui essa mesma cultura e temperamento. Ela centraliza o software, o hardware, o marketing, o design, as vendas online. É duramente criticada por ter na maioria de seus produtos uma arquitetura fechada. É a última empresa da indústria a controlar o seu próprio software. O resultado, além de críticas, é o melhor produto do planeta.

Os clientes da Dell e da Compaq sabem que quando algo dá errado a assistência técnica diz que o problema é do Windows. Quando o cliente do Windows reclama de algo errado, a assistência técnica da Microsoft diz que o problema é do hardware. Ainda bem que sou um cliente da Apple. Meu MacBookPro descansa no sleep há mais de 6 meses, e sempre liga sem problemas. É Plug and Play, não Plug and Pray.

3 – Invista em Pessoas:

Com a Pixar, Jobs subverteu uma prática comum em Hollywood de funcionar por contrato, empregando talentos como freelancers. Ele percebeu que quando se terminava uma produção era quando finalmente a equipe começava a se entender de verdade. A Pixar em vez de financiar roteiros e grandes idéias passou a financiar a carreira de seus empregados. Existe até a Universidade Pixar, com cursos, palestras e seminários. Saiu de um modelo de negócio centrado em idéias, para um negócio centrado em pessoas. Para citar como deu certo, sabe o nome do seu primeiro longa de animação? Toy Story.

4 – Não Invente a Roda, Invente a Bicicleta:

A Apple não inventou o USB, nem o Wifi, nem o MP3. Só que ninguém soube aproveitar melhor essas tecnologias do que ela. Nas palavras de Jobs: “Criatividade é apenas conectar coisas: quando vc pergunta a pessoas criativas como fizeram as coisas, elas se sentem meio culpadas, porque nao fizeram aquilo, apenas elas viram aquilo.”  Multidisciplinaridade pode ser a diferença. “Muitas pessoas da nossa área não tiveram experiências muito diversificadas… então trazem soluções muito lineares.”

Os adaptadores de energia MegaSafe, que se conectam aos laptops através de imãs, foram copiados de panelas japonesas de cozinhar arroz, que vem com adaptadores magnéticos pelo mesmo motivo dos micros: segurança. Eles destacam facilmente o cabo impedindo que a panela caia no chão ou derrame água quente em uma criança.

5 – Não Crie Produtos e Serviços, Crie Negócios:

Hoje a Apple não faz apenas computadores e dispositivos, faz sistemas de negócios. O produto é a Apple Store, é a Application Store, é o Ping, e por aí vai. Sua cadeia de lojas é a que cresceu mais rápido na história do varejo, atingindo 1 bilhão de vendas anuais em apenas três anos, ultrapassando até mesmo o recorde anterior da Gap. O conceito das lojas de “enriquecer vidas” e seu respectivo layout foram prototipados exaustivamente dentro da sede da própria empresa em Cupertino. Trataram a loja como qualquer outro produto.

Resultado: um iPod é bem mais difícil de se copiar do que um Walkman, por exemplo. Você teria que copiar além do hardware, o software, a loja virtual, a loja física e o banco de dados distribuído em vários outros dispositivos. Um iPod não é um produto. Um iPod é um ecosistema.

Ricardo Saint-Clair

Fontes: A Cabeça de Steve Jobs, Leander Kahney; Inovadores em Ação, Polly LaBarre e William C. Taylor;

Cara de cocô

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Para fazer o download da plaquinha clique aqui:

https://www.yousendit.com/​

Quem nunca pisou num cocô de cachorro?

Para uns dá sorte, para outros dá vontade de rir, mas com certeza dá trabalho.
E todo mundo sabe que tem apenas um único responsável por isso: o dono, que podia ter recolhido a obra do seu melhor amigo.

Cara de Cocô é um momento que fica estampado na cara do dono quando ele não cuida do espaço público. Ajude a mudar isso participando da campanha no seu prédio, na sua praça ou na sua rua. Como?

Faça um download aqui e imprima um destes cartazes em casa. Depois é só colar por aí. Se quiser pode usar o personagem para inventar outra coisa.
Toda sugestão é bem vinda. Afinal, não dá pra discordar: cachorro é legal, cocô não.

Para maiores informações, curta a página www.facebook.com/fora.cara.de.coco

Rodrigo Westin

Design Thinking e Design Doing

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“Olha lá, hein? Quem sabe faz, quem não sabe ensina..”. Foi o que escutei de um amigo, há 13 anos atrás, ao contar orgulhoso que começaria a dar aulas na ESPM. Eu tinha 24 anos, mais anos como diretor de arte do que de formado, e a incerteza se poderia conciliar as duas coisas.

 

Essa frase, misturando humor e preconceito, fazia muito sentido para nós – ex-alunos da UFRJ dos anos 90, onde a distância entre o que era ensinado no campus e o que era ensinado no mercado podia ser mensurada em duas palavras: um abismo.

 

De lá pra cá, continuei convivendo com esse dilema, como diretor de arte, como designer, e como fundador de uma empresa de design. Nunca larguei a ESPM, fiz cursos de extensão, fiz mestrado, mas confesso que ainda não sei qual o equilibrio perfeito entre o Thinking e o Doing no nosso dia-a-dia.

 

Resolvi aprofundar esse assunto depois de ver a disciplina Design Thinking ganhar relevância em livros, revistas e palestras mundo afora. Ela se define no Wikipedia como “uma metodologia e estilo de pensamento que combina empatia pelo contexto do problema, criatividade na geração de soluções e racionalidade para analisar e ajustar essas soluções nesse contexto”. Mas isso não é essencialmente o processo do design há décadas? E mais: se lá no final do processo o design não acontecer, não der certo, não despertar interesse, não se sustentar, como é que fica? Vamos então chamar de Design Thinking Bad?

 

Donald Norman, ex-vice-presidente de tecnologia avançada da Apple, disse certa vez que “design thinking is a term that needs to die”. Ele considera essa disciplina “an useful myth”, e tem a autoridade de quem viveu isso na pele. Enquanto trabalhou na Apple, fez muita pesquisa, muita entrevista, visitava a casa das pessoas, preparava relatórios.. Sabe o que aconteceu quando o Steve Jobs voltou à companhia? Ele foi demitido. E nas sua próprias palavras: “You guess what resulted? Better products.”

 

Em um artigo no site Core 77, Norman polemiza: “Design Thinking é um termo bom só para relações públicas?” Será? Em uma entrevista na Época, o psicólogo americano Chip Heath afirma que “emocionar funciona melhor que informar”, para que os outros “comprem” suas ideias. Ele é pesquisador de Stanford, veio ao Brasil participar de um fórum de Inovação e Crescimento e estuda o assunto há mais de 20 anos. Meu Deus! Qualquer criativo sabe disso no primeiro mês de trabalho, não de pesquisa. Porque ou ele “emociona”, ou perde o emprego ou o estágio. Não existe a opção simplesmente “informar”.

 

Tudo bem, podemos presumir aqui que o público alvo são executivos que não tem essa cultura dentro da empresa, e, é claro, nossos potenciais clientes. E que essa é uma etapa necessária para consolidar de vez nossas ferramentas e metodologias de anos no mundo dos negócios de hoje. Mas se vamos falar em Thinking, não podemos deixar de pontuar que é no Doing – onde tudo se materializa – que reside o grande desafio. Seria como dominar uma partida de futebol, fazer jogadas lindas, terminar no zero a zero e perder nos pénaltis.. Não é na hora do gol que se encontra o verdadeiro valor do Design?

 

Para terminar, lembro de um cartaz na porta de um curso de desenho de modelo vivo, em Chicago: “You do, or you do not. There is no try. Yoda.” Sim! Mestre Yoda! Aquele baixinho, verdinho, orelhudo e Jedi, da saga de George Lucas, nos ensinou isso!

 

O resto é Design Talking.

 

Ricardo Saint-Clair

O autoral e o corporativo

A primeira vez que ouvi a palavra “authorship” foi no mestrado, há 10 anos atrás. E junto com ela vinham os portfolios de escritórios como a Tomato, em Londres, Bruce Mau, em Toronto, e Tilbor Kalman, em Nova Iorque. Era impressionante a quantidade de trabalhos autorais que eles eram capazes de tocar junto com projetos corporativos. E mais: como que era evidente no trabalho corporativo deles uma linguagem particular, uma voz, quase um manifesto em relação a nossa própria missão dentro do design.

Quem se interessar sobre esse assunto, não pode deixar de ler Designing Design, de Kenya Hara. Logo no início ele pontua: “verbalizing design is another act of design.” E daí pra frente você de delicia com a postura ética e a profundidade conceitual em cada job, transitando com facilidade entre o gráfico e o produto, como se não houvesse fronteira entre as duas disciplinas.

Kenya Hara toca o próprio estúdio em Tokyo, além de ser diretor de arte da Muji, a famosa loja japonesa de produtos minimalistas. E gasta páginas no livro para discutir o confronto entre o racionalismo do Ocidente e o aspecto holístico do Oriente. Em um mundo em que vivemos a máxima da produtividade, da otimização e do downsizing, é inspirador se deparar com clientes como o Umeda Hospital, apostando em uma sinalização leve com tecidos brancos. Aqui tipografia, textura e informação se transformam em conforto, poesia e limpeza para os andares do prédio. Se as placas de pano nas paredes são limpas e esterilizadas diariamente, os pacientes podem ter a certeza de que os lençois de suas camas também.

Tudo a nossa volta é uma oportunidade. O país nunca viu tanta oportunidade. É uma boa hora do design brasileiro aprofundar a sua missão e seu compromisso com o dia a dia das pessoas.

Ricardo Saint-Clair

Inútil

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Pensando na quantidade de itens que havia na casa da minha avó e na quantidade de itens possíveis para uma residência de hoje, fica provado, pelo menos pra mim, que a necessidade de hoje está mais para uma vontade, ou que a vontade é uma necessidade.

 

A sustentabilidade é hoje também o perdão perfeito para adquirir um novo produto. Sem discussões: é melhor um produto que consuma menos, que polua menos. O fato é que o espaço aberto para produtos fora desta faixa honrosa existe e alimenta a psique consumista de muita gente. Assim como um médico deve conviver com a morte, procuro dialogar no meu dia-a-dia com o que faço. Afinal também consumo um pouco mais do que devo e não tenho culpa, pelo menos nisso.

 

Participamos de uma feira nacional de comécio de design de produto chamada Paralela Gift. No pavilhão haviam muitos, mas muitos produtos a venda para lojistas de todo o Brasil. Junto com a Paralela havia outra feira gigante, esta rainha local do consumo global feita por um exército de produtos poliglotas fabricados na China.

 

Para essa experiência comercial, propuz outra. Um produto verdadeiramente “Inútil”. A palavra em objeto, hermética só por angulacão. Dependendo do olhar um objeto pode ser inútil ou não. Da utilidade, vem o lado escultórico, ou um bom peso de papel. Do inútil, a discussão do que é a vontade de ter, seja por necessidade ou merecidamente por prazer. Por ser completamente inútil, seu valor era R$ 2.000. Nada mais justo e sincero com quem fosse comprar.

 

Conclusão: praticamente todos os interessados viam a peça como um porta-alguma coisa. Cds, cartas, contas, canetas, livros, enfim tudo que coubesse nas entre-letras. Quando liam ou eu explicava, o desafio de torná-lo útil aumentava. Nas entre-linhas ficou a vontade de tudo ter utilidade, de valorizar alguma função mesmo que inventada para poder adquirir. Lembro de duas pessoas que quiseram comprar conscientemente valorizando a idéia Inútil. Mas compreendi com respeito a recusa. Naquele momento o valor dava para comprar muito mais coisas, possivelmente também inúteis.

 

Rodrigo Westin

it is not about the world of design, it is about the design of the world

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Dizem que não se deve começar um texto com uma citação.. mas ninguém falou sobre colocar citação no título. Li essa frase no livro Massive Change, do Bruce Mao. Falando de small changes, fiz essa foto em um café durante o Festival de Cannes 2010. Como embalagem de cerveja, nenhuma grande novidade. Um bom rótulo, um bom logo, uma garrafa de vidro com um desenho interessante. Mas a “gravata” vai além da estética, funcionando como um selo para a tampa, e, melhor ainda, segurando-a quando a cerveja é aberta. Isso diminui a bagunça na mesa e garante que a tampinha vá para o lixo, não para o chão. Em Cannes e no mundo em geral a gente encontra inúmeros exemplos de design e comunicação que fazem o que a gente é pago para fazer: vender coisas. É muito bom encontrar de vez em quando algo que também contribui, inspira, evolui. Essa sempre foi, e espero que continue sendo, a verdadeira missão do design.

Ricardo Saint-Clair

tirinha

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bienal de design de curitiba

A Linha Carga propõe como matéria-prima a reutilização das sobras de pinho de reflorestamento e de compensado de pinho, muito utilizados na indústria de embalagens. Sua estética assume a utilidade principal do material, conservando a forma dos containers para transporte de mercadorias e até mesmo móveis. Aqui o container é o próprio produto. Como a disponibilidade da madeira varia bastante de formato, a linha é modular, podendo adquirir múltiplas formas como bancos, aparadores, mesas e até camas.

A Linha Carga foi selecionada para Bienal Brasileira de Design 2010, com curadoria de Adélia Borges.

Design: Ricardo Saint-Clair, Rodrigo Westin e Paulo Ferreira.